Sunday, November 26, 2006

Sem o ultimo adeus

lembrei-me hoje de ti
vi na tv o teu nome
ou algo parecido
li o teu ser em letras que se amontoavam
fingi que nao eras tu
tentei fazer o zapping a que recorremos
sempre que a vida nao nos parece bem
evitei-te
evitei recordar-te

pus-me a pe e decidi-me a tomar banho
e as tuas memorias pingavam do chuveiro
cada gota sua chacra
esgotei-me na sujidade que escoava do corpo
olhei-te de soslaio
fingi-me de morto
nao fosses querer fazer-me pagar por tudo
agora que nao tens nem lugar nem mundo

ja nao me recordo
durmo sem sonhos
ja nao acordo.

brilha no teu reflexo o teu genio
corta-te cada pedaço de vidro
o punho desfalece sobre ti proprio
nao quero
se me acordo sobrio
volto aonde quero
revisto-me de ti
uso a tua iris
para que veja com as tuas cores
pinto-te com os guaches que secam nas bisnagas
uso os pinceis mais secos que tenho
escrevi nomes em telas ate esboçar o teu
voltas
e eu olho-te
fito-te e desfaleço
les-me o anjo mudo e eu apareço

estilhaço-me em ti,corre-te o vermelho gordo
aqui diz descansa e eu revolto,acordo
e digo-te as nossas trocas.
sem o ultimo adeus.

Monday, November 20, 2006

fabrica de gente

ali meu amor constroem-se cidades
ali reciclam-se as ruinas do que fomos
ali esperam-nos sem orgulho pelo que somos
ali despem-nos de nos
e vestem-nos outros
desenham mapas e elaboram destinos
plasticas baratas em carnes vivas
hoje o mundo mostra-se sem anestesia
vem como ele é.
ali trabalham em nós noite e dia
ali desmembram-nos e desfiguram-nos
ves a luz por uma janela
ves as cores que dançam ao som dos motores
acodem a iluminar a transfiguraçao
fundimo-nos hora apos hora
abres o teu livro,escolhes uma oraçao
esquece amor.
ja nao escapas.
hoje
aqui
acabas.

Monday, November 06, 2006

ensaio

trouxe o livro,entregaram-mo dentro de um envelope com umas tanta cartas.tentei inteirar-me do assunto enquanto descia as escadas a correr,passeei os olhos pela letra minuciosa,pequena e perfeita,nao consegui.apontei o olhar para a assinatura,nao percebo pensei.continuei a descida a pensar no livro.as cartas eram apenas a justificaçao provavel para a sua devoluçao.eu sei quem foi.eu sei de quem é aquela letra.é dela.resolveu quebrar o nosso silencio mutuo ao fim de alguns anos.estilhaçou-se dentro de mim a memoria que guardava intacta,sempre temi o resultado que iria ter,quando a revolvesse,mexendo no que nunca quis.nunca me atrevi.ela ousou.quebrou o nosso pacto de silencio.estampou-me o canalha que eu fui na letra mais vaidosa que ja encontrei.e enviou-me tudo em palavras amargas junto com o sebastiao alba que lhe havia emprestado anos antes.apresso-me ainda mais em chegar a casa para que possa devorar o meu castigo,para que possa adocicar a minha vida com a sua amargura.entro no carro,meto a chave.acelero o mais que posso.ja sao onze da noite.lisboa esta vazia.a um sabado a noite parece improvavel.deve ser do tempo.tento olhar a estrada entre as gotas que me atordoam.aumento o volume da musica.nao resulta.preciso de outro cd.este faz-me lembrar o tempo que passamos juntos.estico-me e ponho outro.um mais recente.um que me lembre um dia em que ja me tivesse esquecido dela.entro na ponte.tenho que desacelerar.a um mes paguei aqui uma multa.continuo dividido entre a pressa da penitencia e a cautela da estrada.passo na estaçao de serviço,preciso de um cafe.nao posso parar.sigo e chego rapido a casa.estou sozinho hoje.a outra saiu.eu nao quero.prefiro castigar-me com aqueles textos que espero tenham ganho um trave maduro pela convivencia com o sebastiao,tal como um vinho maduro em caves anos a fio.ainda pensa em mim,ainda me questiona como fui capaz de a deixar um dia sem uma palavra.sem um bilhete.ou um beijo.evito sempre as despedidas.enchem-me de saudade precoce,um sentimento enjoativo de tao usado que foi.leio as cartas sem mais demora,recordo-me agora do seu rosto.peço-lhe desculpa por dentro por so agora o fazer.recordar-me do rosto de uma mulher ao fim de uns anos é sempre dificil.prefiro guardar de cada uma apenas um ou outro pormenor.os olhos da sofia,o cabelo da teresa,os labios da isabel: traços que me recordem algo de bom.algo que faça valer as chatices que dao.o enfadonhas que se tornam.contorno frase a frase os textos da sonia.divirto-me com aquela expiaçao de culpa.deixei-a por ela.deixo-as sempre que me pedem mais do que estou disposto a dar.recordo-me de ler nos seus labios cada um dos meus cantos.digo ler nos labios porque quando discutiamos,geralmente nao lhe dava muita atençao e empenhava-me em elaborar um plano de fuga que me exilasse dali o mais breve possivel.os labios da sonia tambem me trazem boas memorias.tenho que recuar e tirar isto da mente.preciso de escrever.o tempo urge e o prazo aproxima-se.os labios da sonia podem esperar.ligo-lhe depois de amanha.preparo um balao de vinho.um alentejano de 2001,diz-se um ano de optima colheita.o meu pai guarda-me sempre estes pequenos prazeres.vejo-o menos vezes agora.desde que a minha mae se finou.temos a mesma delicadeza perante certos temas.evitamos e abortamos tudo o que com eles se relacione.finou-se em 2002.agora que atento nisso,nao me recordo que ele guarde uma garrafa posterior a esse ano.penso que as bebe com a ideia que algum contenha o veneno que ela miraculosamente colocou nalguma colheita para que se possam juntar.recuo.nao me debruço muito sobre estes parentesis e nauseas que o amor me traz.pergunta-me sempre se fui la,referindo-se ao cemiterio,afim de saber se cumpro os meus deveres de orfao de mae.respondo-lhe sempre que sim.minto-lhe.prefiro reconfortar os vivos com mentiras do que iludir-me a mim com ideias sobre os mortos.apraz-me pensar que me torno melhor pessoa atraves do uso da mentira.delicio-me ao pensar que engano deus com armas do diabo.retorno ao prazo e ao tempo que me esmaga o ocio.ja com o balao cheio.acendo um cigarro,desisti de insistir em cigarrilhas.deixo-as para mais uma decada se a morte mo permitir.curiosamente inclino-me para o ecra (deixei o papel a muito) e reclino-me na cadeira.esgoto-me a pensar se os textos da sonia nao terao tido mais impacto do que esperava.amaldiçoada seja a cabra onde estiver.maldita a hora em que a toquei,mas penso nos labios e sorrio.ligo-lhe amanha.tenho que olhar a rua.levanto-me e encosto-me ao vidro , a chuva insiste em lavar tudo o que encontra.os carros desfilam luzes incertas,as poças reflectem o que quero.o paulo foi bem claro,ate sexta-feira ou cancelam o contrato.nunca me preocupei muito com estes prazos.mas agora faltam-me palavras.esgotam-se-me as ideias.oiço o curtains.fui ve-los a uns anos com esta.saiu.eu nao quis.que falta me faz agora para nos enchermos de conversas entediantes ate que eu lhe devolva a minha parte do dialogo com respostas quase mudas e me aborreça de vez.acendo mais um cigarro ,absorvo o fumo.deixo-me cair no sofa virado para a vidraça.sempre tive este habito de ter os sofas orientados para as janelas e varandas.penso que a vida la fora é um passatempo optimo quando temos um certo cansaço de nós proprios.disse-me outrora antes de a deixar que me afasto de quem se da.estico-lhe a mao ,aceno-lhe e dou-lhe razao.nao me habituo facilmente ao incomodo que sao as vidas dos outros.so me lembro da boca a desenhar as letras e estas amontoarem-se nas frases que ja conhecia de cor.era como ler al berto pelos labios do proprio.sabia cada virgula,cada ponto final,cada pausa para respirar.mas os seus labios.os labios da sonia.ou seria ana.tenho que ver de novo a assinatura vaidosa nas cartas.

amanha escrevo,hoje durmo

Sunday, November 05, 2006

Enrolo-me e submerjo

servem-te o fim numa bandeja de charme e romance
optas por petiscar um pouco do podre que tens
fechas-te em copas com o novo paladar
aguardas outra injecçao de angustia
nao esperas mais nada
deram-te mais do que desejavas
a historia da tua vida
sabes agora como acabas
foges corres e nao paras
nao precisas
has de parar.
nao por ti.
por ele.

o calendario apressa-se em mostrar que ja se avizinha
rasgas-lhe dias e dias
como se saltasses sobre ele
como se o ludibriasses
e depois te sentasses de novo no sofa
que ja nao tem a mesma cor nem textura
mas o fim ainda perdura
ainda se faz vingar da tua mentira
ainda te oferece toda a amargura
que juraste nunca querer
nao hoje
nao nesta vida

rogas preces
defendes o teu caso
reinventas-te como quem nao o merece
desiste
adociça-te com ele
rasga-te na coxa um pouco de pele
desenha um bolso
e guarda-o
nao ,na coxa nao
perto do peito
dentro do coraçao
estima-o

apagas a luz e dizes-me que é tarde
amanha acordas cedo
eu permaneço encostado fito o vazio
e quero ter medo
desisto
enrolo-me e submerjo
engulo-te o cancro e ja nao apareço.

Wednesday, November 01, 2006

Auto asfixia

mudas os lençois
e cais sobre a cama vazia
pensas nele
em como seria
tocas-te e sentes a mao procurar-te
inventas um braço que nao o teu
o braço com a mao a agarrar-te
viras-te
descobres a cama vazia
os lençois no chao
o tempo que gira em ponteiros obstinados
acautela o risco nesse teu jogo
amas-te e tapas-te sem os lençois no chao
brincas á auto-asfixia
adormeces.

Saturday, October 28, 2006

A emboscada

a emboscada aguarda os passos
o som das pegadas
esconde-se,disfarça-se e descobre o rasto

vivemos bem no meio da nossa demencia
fingimos nao precisar de outros
sorrimo-nos opostos pela nossa doença
e acordamos e deitamo-nos aos tombos
empurras-me para a precipitaçao
esquivo-me,escondo-me
nao me ves
reinventas-te no escuro para que nao te veja
aguardas-me com a tua calma homicida
desejas que me mostre,que me revele
mas hoje sou eu quem se sacia com a nossa carnificina
e o teu corpo vai e vem
e as minhas maos escrevem traços com a tinta do teu prazer
chamas-me amor,querido,bem,
e eu?
eu so te quero ter!

Friday, October 20, 2006

Pele sobre pele

penduro-me no extremo do teu sorriso
procuro cair do teu labio inferior
rasgo-te o traço,vejo-o e nao evito
mas o que sinto é pior
tocamo-nos palma com palma
as linhas das minhas maos desembocam nas tuas

enterro-me em ti,escondo-me em ti

tenho a franca sensaçao de as vezes te deixar
como se por momentos me ausentasse de mim
deturpo-me em correr e tactear
como se pelas pontas dos dedos apaziguasse
tudo o que em mim vai mal

logo apos caio e encaixo-me no corpo
descanso por me sentir em casa
e de novo os calores e o desconforto

habituo-me ao cheiro acre que havia deixado subpele
tacteio agora este fato
este vestido de pele que sou
a vida que me segue e persegue
para que desista para que quede
e eu anseio despir-me, romper a pele
iludir o passado para que o presente sossegue