trouxe o livro,entregaram-mo dentro de um envelope com umas tanta cartas.tentei inteirar-me do assunto enquanto descia as escadas a correr,passeei os olhos pela letra minuciosa,pequena e perfeita,nao consegui.apontei o olhar para a assinatura,nao percebo pensei.continuei a descida a pensar no livro.as cartas eram apenas a justificaçao provavel para a sua devoluçao.eu sei quem foi.eu sei de quem é aquela letra.é dela.resolveu quebrar o nosso silencio mutuo ao fim de alguns anos.estilhaçou-se dentro de mim a memoria que guardava intacta,sempre temi o resultado que iria ter,quando a revolvesse,mexendo no que nunca quis.nunca me atrevi.ela ousou.quebrou o nosso pacto de silencio.estampou-me o canalha que eu fui na letra mais vaidosa que ja encontrei.e enviou-me tudo em palavras amargas junto com o sebastiao alba que lhe havia emprestado anos antes.apresso-me ainda mais em chegar a casa para que possa devorar o meu castigo,para que possa adocicar a minha vida com a sua amargura.entro no carro,meto a chave.acelero o mais que posso.ja sao onze da noite.lisboa esta vazia.a um sabado a noite parece improvavel.deve ser do tempo.tento olhar a estrada entre as gotas que me atordoam.aumento o volume da musica.nao resulta.preciso de outro cd.este faz-me lembrar o tempo que passamos juntos.estico-me e ponho outro.um mais recente.um que me lembre um dia em que ja me tivesse esquecido dela.entro na ponte.tenho que desacelerar.a um mes paguei aqui uma multa.continuo dividido entre a pressa da penitencia e a cautela da estrada.passo na estaçao de serviço,preciso de um cafe.nao posso parar.sigo e chego rapido a casa.estou sozinho hoje.a outra saiu.eu nao quero.prefiro castigar-me com aqueles textos que espero tenham ganho um trave maduro pela convivencia com o sebastiao,tal como um vinho maduro em caves anos a fio.ainda pensa em mim,ainda me questiona como fui capaz de a deixar um dia sem uma palavra.sem um bilhete.ou um beijo.evito sempre as despedidas.enchem-me de saudade precoce,um sentimento enjoativo de tao usado que foi.leio as cartas sem mais demora,recordo-me agora do seu rosto.peço-lhe desculpa por dentro por so agora o fazer.recordar-me do rosto de uma mulher ao fim de uns anos é sempre dificil.prefiro guardar de cada uma apenas um ou outro pormenor.os olhos da sofia,o cabelo da teresa,os labios da isabel: traços que me recordem algo de bom.algo que faça valer as chatices que dao.o enfadonhas que se tornam.contorno frase a frase os textos da sonia.divirto-me com aquela expiaçao de culpa.deixei-a por ela.deixo-as sempre que me pedem mais do que estou disposto a dar.recordo-me de ler nos seus labios cada um dos meus cantos.digo ler nos labios porque quando discutiamos,geralmente nao lhe dava muita atençao e empenhava-me em elaborar um plano de fuga que me exilasse dali o mais breve possivel.os labios da sonia tambem me trazem boas memorias.tenho que recuar e tirar isto da mente.preciso de escrever.o tempo urge e o prazo aproxima-se.os labios da sonia podem esperar.ligo-lhe depois de amanha.preparo um balao de vinho.um alentejano de 2001,diz-se um ano de optima colheita.o meu pai guarda-me sempre estes pequenos prazeres.vejo-o menos vezes agora.desde que a minha mae se finou.temos a mesma delicadeza perante certos temas.evitamos e abortamos tudo o que com eles se relacione.finou-se em 2002.agora que atento nisso,nao me recordo que ele guarde uma garrafa posterior a esse ano.penso que as bebe com a ideia que algum contenha o veneno que ela miraculosamente colocou nalguma colheita para que se possam juntar.recuo.nao me debruço muito sobre estes parentesis e nauseas que o amor me traz.pergunta-me sempre se fui la,referindo-se ao cemiterio,afim de saber se cumpro os meus deveres de orfao de mae.respondo-lhe sempre que sim.minto-lhe.prefiro reconfortar os vivos com mentiras do que iludir-me a mim com ideias sobre os mortos.apraz-me pensar que me torno melhor pessoa atraves do uso da mentira.delicio-me ao pensar que engano deus com armas do diabo.retorno ao prazo e ao tempo que me esmaga o ocio.ja com o balao cheio.acendo um cigarro,desisti de insistir em cigarrilhas.deixo-as para mais uma decada se a morte mo permitir.curiosamente inclino-me para o ecra (deixei o papel a muito) e reclino-me na cadeira.esgoto-me a pensar se os textos da sonia nao terao tido mais impacto do que esperava.amaldiçoada seja a cabra onde estiver.maldita a hora em que a toquei,mas penso nos labios e sorrio.ligo-lhe amanha.tenho que olhar a rua.levanto-me e encosto-me ao vidro , a chuva insiste em lavar tudo o que encontra.os carros desfilam luzes incertas,as poças reflectem o que quero.o paulo foi bem claro,ate sexta-feira ou cancelam o contrato.nunca me preocupei muito com estes prazos.mas agora faltam-me palavras.esgotam-se-me as ideias.oiço o curtains.fui ve-los a uns anos com esta.saiu.eu nao quis.que falta me faz agora para nos enchermos de conversas entediantes ate que eu lhe devolva a minha parte do dialogo com respostas quase mudas e me aborreça de vez.acendo mais um cigarro ,absorvo o fumo.deixo-me cair no sofa virado para a vidraça.sempre tive este habito de ter os sofas orientados para as janelas e varandas.penso que a vida la fora é um passatempo optimo quando temos um certo cansaço de nós proprios.disse-me outrora antes de a deixar que me afasto de quem se da.estico-lhe a mao ,aceno-lhe e dou-lhe razao.nao me habituo facilmente ao incomodo que sao as vidas dos outros.so me lembro da boca a desenhar as letras e estas amontoarem-se nas frases que ja conhecia de cor.era como ler al berto pelos labios do proprio.sabia cada virgula,cada ponto final,cada pausa para respirar.mas os seus labios.os labios da sonia.ou seria ana.tenho que ver de novo a assinatura vaidosa nas cartas.
amanha escrevo,hoje durmo